Interdição de FHC reacende debate sobre curatela e planejamento patrimonial 

Interdição de FHC reacende debate sobre curatela e planejamento patrimonial 

A recente decisão da Justiça de São Paulo que autorizou a interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em razão do agravamento do quadro de Alzheimer, trouxe novamente ao centro do debate um tema sensível e cada vez mais presente no Direito das Famílias: a curatela.

A medida, solicitada pelos filhos e fundamentada em laudos médicos que apontam comprometimento da capacidade cognitiva, resultou na nomeação de um curador provisório, responsável por representar o ex-presidente em atos da vida civil, inclusive em decisões patrimoniais e financeiras.

Embora envolva uma figura pública, o caso reflete uma realidade que se repete em milhares de famílias brasileiras, especialmente diante do aumento da expectativa de vida e da incidência de doenças neurodegenerativas.

A interdição, prevista no Código Civil, é o instrumento jurídico utilizado quando a pessoa não possui mais condições de exercer, de forma plena, os atos da vida civil. Nesses casos, o Judiciário pode nomear um curador, que representará o interditado ou curatelado de forma supervisionada pelo judiciário e sujeito à prestação de contas.

Para o advogado Alexandre Dalla Bernardina, o tema exige tratamento técnico e, sobretudo, sensibilidade. “A curatela não deve ser vista como uma medida de retirada de direitos, mas como um mecanismo de proteção. O objetivo central é preservar a dignidade da pessoa, garantindo que suas decisões sejam tomadas de forma segura, especialmente quando há comprometimento do discernimento”, explica.

O advogado destaca que, na prática, a curatela pode variar em sua extensão, conforme o grau de incapacidade da pessoa.  “No ordenamento jurídico brasileiro, contudo, ela é, como regra, parcial e proporcional, restringindo-se aos atos de natureza patrimonial e negocial,  com preservação dos direitos de caráter pessoal, em respeito à dignidade da pessoa incapaz”, afirma.

Além disso, o caso reforça a importância do planejamento patrimonial e sucessório como ferramenta preventiva. Instrumentos como procurações, diretivas antecipadas de vontade e organização prévia da gestão patrimonial, além do testamento vital, podem reduzir conflitos familiares e dar maior previsibilidade em situações de perda de capacidade.

“O planejamento é importante porque a interdição acarreta uma série de restrições para a movimentação financeira e pagamento de despesas, permitindo uma organização que não sacrifique despesas essenciais à manutenção da qualidade de vida do idoso”, explica o advogado.

O que se observa é que muitas famílias só enfrentam esse tema em momentos de crise. Um planejamento bem estruturado permite antecipar decisões, respeitar a vontade da pessoa e evitar desgastes emocionais e jurídicos em um momento já delicado”, completa.

Com o envelhecimento da população brasileira, a tendência é que discussões envolvendo interdição e curatela se tornem cada vez mais frequentes, exigindo não apenas conhecimento jurídico, mas uma abordagem cuidadosa, que equilibre proteção, autonomia e dignidade.

Alexandre Dalla Bernardina

De: Christini Ziviani