O que pode mudar na logística do ES com uma escala de trabalho 5X2?

Em um centro de distribuição na Grande Vitória, o relógio sempre foi um aliado silencioso da operação. Cada hora a mais significava mais pedidos separados e caminhões carregados. Agora, com o avanço do debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal sem diminuição salarial, essa lógica muda drasticamente. A pergunta central deixa de ser sobre a disponibilidade de tempo e passa a ser sobre a maximização da produtividade.

A mudança impacta diretamente a logística, área extremamente sensível à gestão do tempo. No Espírito Santo, esse impacto é amplificado pelo peso estratégico do setor. Com um hub que acessa 60% do PIB nacional em um raio competitivo, o estado não pode permitir que a redução de horas se traduza em perda de competitividade.

Para o coordenador da Câmara Temática de Gestão de Materiais e Logística do CRA-ES, Admº Denilton Macário de Paula, a mudança exige uma revisão profunda. “A logística baseada em ‘músculo’ e horas extras está chegando ao fim. O momento exige a aplicação rigorosa do Lean Logistics, focando na eliminação implacável de desperdícios e na otimização do fluxo“, afirma.

Na prática, com menos horas disponíveis, o foco se volta para o Overall Equipment Effectiveness (OEE) Humano. Não se trata de fazer o colaborador trabalhar mais rápido, mas de garantir que o tempo em que ele está na operação seja de alto valor agregado. “Precisamos medir a performance por hora-homem com precisão cirúrgica. Se o input de tempo diminui, a eficiência dos processos de picking e cross-docking precisa subir para que o volume de saída permaneça constante” , explica Denilton.

Desafios

Um dos maiores riscos da transição para a escala 5×2 é o impacto no Service Level Agreement (SLA). Em setores como e-commerce e fármacos, onde o prazo de entrega é um diferencial crítico, a ausência de operação em dias específicos pode gerar gargalos. “O tempo deixa de ser um recurso elástico e passa a ser um ativo estratégico. Para manter o nível de serviço SLA prometido ao cliente, as empresas terão que investir em sincronização. A gestão de estoques e a roteirização precisam ser orientadas por dados (Data-Driven) para evitar que o ‘ponto cego’ do final de semana interrompa o fluxo de caixa e a experiência do consumidor“, destaca o coordenador.

Esse novo cenário acelera um trade-off inevitável: o aumento do custo da mão de obra por hora trabalhada torna os investimentos em automação (CapEx) muito mais atrativos. Sistemas de previsão de demanda, esteiras automatizadas e inteligência artificial para otimização de redes deixam de ser luxo para se tornarem itens de sobrevivência. “O que muda é a lógica operacional. Antes, a solução era aumentar o tempo de trabalho. Agora, a resposta está na tecnologia e na gestão. A logística se torna o cérebro da estratégia empresarial“, pontua Denilton Macário.

No Espírito Santo, a mudança pode acelerar a transição para operações inteligentes e integradas. No fim, o desafio imposto pelo possível fim da escala 6×1 revela uma verdade que a ciência da administração já sinalizava: não é o tempo que garante o resultado, é a excelência da gestão.

O que pode mudar na logística do ES com uma escala de trabalho 5X2?

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