O caminho de Sarah Galvão até o Mundial: o favoritismo de uma faixa-preta recém-chegada, mas extraordinária
A Pirâmide, na Califórnia, que anualmente sedia o Mundial de Jiu-Jitsu da IBJJF, é uma espécie de templo, um espaço quase sagrado para o atleta qualquer que seja o nível em que ele se encontra. Para Sarah Galvão, faixa-preta da Atos San Diego, não é diferente. Com predicados de estrela apesar da pouca idade, 19 anos, e da experiência incipiente dentro da elite do esporte, o que Sarah fez até aqui é nada menos que extraordinário.
No dia 30 de maio, próximo sábado, a filha de André e Angélica Galvão vai entrar na Pirâmide, pela primeira vez, para competir um Mundial com a faixa-preta amarrada na cintura. Foi justamente nesse mesmo torneio, no ano passado, que o ciclo dela nas faixas coloridas foi encerrado. O momento não poderia ser mais propício. Campeã mundial na divisão peso leve entre as atletas da faixa-marrom.
A essa altura, sua entrada no alto rendimento já era aguardada com grande expectativa. Era nítido que Sarah estava chegando para deixar uma marca, fazer história. Em competições que permitiam lutas com atletas mais graduadas, como na AJP Tour, que mesclam competidoras das faixas marrom e preta em divisões profissionais, Sarah já tinha colocado seu Jiu-Jitsu à prova para desbancar oponentes consolidadas no alto rendimento. Receber a faixa-preta era uma conquista guardada no fim de uma contagem regressiva acelerada, que acabaria oficialmente no Mundial de 2025.
Sarah Galvão é uma das atletas mais empolgantes da nova geração de faixas-pretas. Foto: Divulgação / Kingz Kimonos
Estreia na Ásia: Sarah Galvão dominou competição da IBJJF no Japão, competindo pela primeira vez como faixa-preta
A estreia de Sarah Galvão no alto nível aconteceu longe de casa, no Japão, no Asian Open da IBJJF. Com aura de favorita, ela lutou para entregar 100% de aproveitamento. O desfecho parecia uma conclusão lógica, campeã ouro duplo, dominando a divisão de peso e as disputas do absoluto. Com quatro meses de faixa-preta, a recém-chegada mostrou uma agressividade versátil no grappling, o Jiu-Jitsu praticado sem pano, no Pan No Gi, também da IBJJF.
Competidora da ala das leves, Sarah atuou no médio, uma divisão acima, e chegou à final finalizando todas as lutas com técnicas diversas. Alías, a forma como ela performa não admite dúvidas quando o assunto é a variedade de seu acervo; com e sem pano, a lutadora da Atos sabe exatamente como agir sem perder a criatividade. Na final do Pan No Gi, ela derrotou a europeia Injana Goodman para receber mais uma medalha dourada no pódio.
Em novembro do mesmo ano, Sarah se viu diante da chance de agigantar ainda mais a carreira. Ela foi convocada para o The Crown, competição chancelada pela IBJJF, de kimono, no formato de Grand Prix. A proposta é pinçar atletas bem posicionados no cenário para coroar apenas um. Sarah entrou na batalha com a missão de comandar o reino do peso leve. Para isso, ela precisaria destronar Brianna Ste-Marie, atual campeã do The Crown que retornou ao torneio para a defesa de título.
Performance estrondosa no The Crown: Sarah arrebatou a coroa ao finalizar Brianna Ste-Marie
O primeiro desafio de Sarah na competição, também na icônica Walter Pyramid, foi justamente contra Brianna, ela só avançaria na chave se eliminasse a campeã. É esse tipo de provação que os atletas fora da curva mais gostam. Sarah não recuou diante de uma reputação que poderia intimidá-la ou encolher o seu potencial. Muito pelo contrário. Ela não apenas venceu, mas finalizou Brianna com um estrangulamento pelas costas. Nada parecia mais difícil do que isso. Em seguida, Sarah tirou Cassia Moura da jogada, outra multicampeã da nova geração, para, na reta final, vencer Janaina Lebre, campeã mundial, em uma guerra com resultado determinado por apenas uma vantagem.
Campeã do The Crown com poucos meses de faixa-preta, Sarah Galvão, mais uma vez, impressionou com técnica muito lapidada. Foto: Israel Hudson
O Campeonato Europeu é a competição que abre oficialmente o calendário dos principais eventos do Grand Slam da IBJJF, um circuito que abrange essa competição, em Lisboa, passa pelo Pan-Americano, na Flórida, pelo Brasileiro, em São Paulo, com encerramento no Mundial, na Califórnia. Diante da trajetória de Sarah, era evidente que os próximos meses seriam oportunos, mas ela fez bem mais do que já esperavam dela.
Foi no Europeu que a atleta peso leve anunciou sua participação no absoluto, essa decisão teve impacto direto no imaginário dos entusiastas do esporte. Significava que Sarah e Gabrieli Pessanha poderiam se enfrentar no absoluto. E sim, isso de fato aconteceu, logo na final do do peso aberto no Europeu de 2026. Foi a primeira vez, na história da IBJJF, que duas mulheres fizeram a última e mais importante luta de uma das competições de Grand Slam da federação internacional.
Gabi Pessanha, faixa-preta natural da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, é a maior campeã da história da IBJJF, independentemente de gênero. A final do Europeu providenciou uma colisão de gigantes, duas fortalezas construídas sobre diferentes contextos. Gabi já tinha experiência, uma pilha extraordinária de títulos e uma reputação consolidada de estrela do esporte. Sarah, por sua vez, já não poderia mais, por tudo que exibiu, ser chamada de promessa. Ela era uma realidade, com estratégia robusta em um corpo leve, perfeitamente apta a fazer maravilhas diante de oponentes mais pesadas. Um conceito que dialoga claramente com a essência mais primordial do Jiu-Jitsu.
Naquela noite, no dia 24 de janeiro de 2026, Gabi saiu vencedora da final do absoluto em Lisboa. Um confronto marcado por equilíbrio. No placar, uma vantagem a mais definiu a campeã. Sarah comemorou e pouca gente, ali na hora, entendeu essa reação. Impor perigo e conduzir um duelo parelho com uma campeã tão dominante como Gabi Pessanha não são feitos medíocres. Só isso valeria um sorriso, mas é como se Sarah soubesse, de antemão, o que lhe aguardava nos próximos dias.
Feliz por fazer história: Sarah Galvão comemora a campanha no Europeu da temporada, ouro na categoria e prata no absoluto depois de uma final desafiadora contra Gabrieli Pessanha, lenda do esporte. Foto: Gabriel Mendes / Beatriz Lina
Revanche no absoluto: com campanha que chocou a comunidade do esporte, Sarah desbancou a lendária Gabi Pessanha por pontos
Em março aconteceu o Pan-Americano, em Kissimmee, na Flórida, o segundo dos torneios principais realizados pela IBJJF anualmente. Mais uma vez, repetindo o padrão, Sarah garantiu a primeira colocação no peso leve, não sem antes cravar o próprio novo na chave do absoluto. Para fazer por merecer a vaga em mais uma final do peso aberto, Sarah passou ilesa por cinco confrontos e se posicionou no topo do peso leve.
Gabi, em sua missão individual, fez o mesmo no super-pesado e avançou imponente do outro lado da chave do absoluto. A tão aguardada revanche estava oficialmente configurada. Sarah Galvão e Gabrieli Pessanha, mais uma vez, ficariam frente a frente pela medalha mais cobiçada.
A dominância de Gabi no Pan-Americano acontecia desde 2022, quando ela venceu peso e absoluto de forma consecutiva, até então. Os indícios apontavam mais um capítulo escrito sem grandes novidades, até que Sarah Galvão surgiu nesse caminho depois do revés sofrido, se é que se pode chamar assim, no Europeu. A movimentação de luta, com Sarah solta em termos de estratégia mesmo contra uma oponente mais pesada, foi suficiente para indicar que algo extraordinário estava prestes a acontecer ali.
Campeã ouro duplo do Pan-Americano: faixa-preta da Atos entregou campanha sem falhas no Pan da temporada, na Flórida. Foto: Kingz Kimonos
Bastou um lapso da favorita para turbinar o ímpeto da menos experiente, que pulou nas costas e deu sequência em um espetáculo de progressões para contabilizar seis pontos a zero no placar. O choro dessa vez foi diferente, tomado por uma emoção de quem acabou de perceber a autoria de uma façanha que vai perdurar na história do esporte.
Antes do Mundial, Sarah desembarcou no Brasil, em São Paulo, estado onde nasceu, para disputar o Campeonato Brasileiro, o torneio mais longo em comparação aos outros grandes eventos da IBJJF, com 10 dias de disputas. A campanha da atleta em Barueri contou com três vitórias por armlock na chave do absoluto e mais um ouro na categoria peso leve. Gabi Pessanha, de novo, interrompeu o desejo do ouro duplo, devolvendo a derrota por pontos que sofreu no Pan. Sarah mostrou frustração, mas Gabi fez questão de erguer o braço da “rival” para o público aplaudí-la. Afinal, qualquer campeã precisa da outra lhe encarando do outro lado do tatame. Sem luta, não há adversário. Sem dificuldade, não existe evolução.
Gabi Pessanha e Sarah Galvão fizeram, no Brasileiro de Jiu-Jitsu, a terceira final consecutiva do absoluto nos torneios de Grand Slam da IBJJF. Foto: Renan Monteiro
Como faixa-preta, a representante da Atos só perdeu três duelos em um saldo que ultrapassa cinquenta lutas
Todo o caminho até aqui encaminhou Sarah Galvão ao Mundial de 2026. Evento que acontece, neste momento, na esplendorosa Pirâmide, em Long Beach. 17 títulos, 6 países, 55 lutas, 52 vitórias e 3 derrotas. Números levantados pela própria Sarah em uma postagem recente nas redes sociais. “De alguma forma, meu primeiro ano como faixa-preta já me levou mais longe do que eu poderia imaginar. Agora eu entro no Mundial como faixa-preta. Hora de fazer tudo de novo”, concluiu.
Já que Sarah citou dados, cabe aqui citar uma curiosidade numérica interessante: no dia 30 de maio ela completa um ano de faixa-preta e é justamente na trigésima edição do Mundial da IBJJF que ela pode conquistar o seu primeiro título mundial na elite do esporte. Na lógica do favoritismo, também existem perigos e imprevisibilidades. A única certeza de Sarah é que uma lutadora feliz, é uma lutadora perigosa.
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Fonte Original: Placar





