Copa começa com Infantino sob pressão: ‘Não somos os reis do mundo’
“Você se sente envergonhado e poderia admitir que perdeu o controle de seu próprio torneio?”
A demolidora pergunta de Dan Roan, editor de esportes da rede britânica BBC, fez o presidente da Fifa Gianni Infantino rir de nervoso antes de dar uma resposta vazia. Em entrevista coletiva na Cidade do México, na véspera da abertura da Copa do Mundo de 2026, o dirigente ítalo-suíço teve de lidar com as próprias contradições nesta quarta-feira, 10.
Ao alardear por anos que a “família do futebol” desfrutaria de um clima de inclusão e harmonia no Mundial na América do Norte, Infantino talvez não previsse que ter cedido a tantos caprichos do governo do presidente americano (e seu amigo íntimo) Donald Trump, lhe custariam tão caro.
Nos últimos dias, a política imigratória americana produziu uma infinidade de absurdos envolvendo torcedores e atletas. Mas nenhuma vergonha foi maior do que o fato de o árbitro somali Omar Artan ter tido sua entrada negada pelos Estados Unidos para exercer sua profissão durante a Copa.
Visivelmente envergonhado, Infantino lamentou o ocorrido e disse que a Fifa não tem poder para intervir em questões migratórias do governo americano. “É uma pena o que aconteceu com Omar, o árbitro da Somália, mas não conseguimos controlar tudo. Nós tentamos conversar e resolver. Às vezes, começar a gritar tem um efeito contrário”, lamentou Infantino.
“Nós sempre tentamos achar soluções, mas temos de respeitar que não somos os reis do mundo que podem mandar em governos e forças policiais. Somos uma organização esportiva. Queremos unir o mundo e se posso pedir uma coisa. Podem me criticar, mas promovam a unidade da Copa do Mundo”, prosseguiu.
“Chill, relax”
BBC sports editor Dan Roan asks Fifa president Gianni Infantino if he’s lost control of his own tournament. #FifaWorldCup pic.twitter.com/swtkZFnqeL
— BBC Sport (@BBCSport) June 10, 2026
‘Segurança acima de tudo’
Ao jornalista da BBC, Infantino revelou que o Mundial feminino de 2035 deve ocorrer em solo britânico, para tentar provar seu ponto: “Sabe, em 2035, eu espero que a Copa do Mundo feminina seja no Reino Unido. Você acharia normal que a Fifa ditasse ao governo britânico quem deveria entrar ou não no Reino Unido? Talvez você achasse normal e eu também gostaria que fosse assim. Mas, por outro lado, a realidade é que não é fácil quando você tem 300.000 pessoas credenciadas, a maioria de fora do país, querendo entrar. Infelizmente, vivemos em um mundo agressivo e a segurança vai acima de tudo”, afirmou.
“Eu preciso respeitar as decisões, e quando digo para relaxarmos, não é para relaxar sem fazer nada, mas para confiar que estamos fazendo o possível para encontrar soluções. Eu acho que já foi positivo conseguir trazer o Irã para esta Copa do Mundo […] Não vivemos na Lua, vivemos no planeta Terra. Tentamos fazer nosso melhor e esperamos ter boas notícias”, complementou o dirigente, que se mostrou tão submisso a Trump nos últimos anos que chegou a conceder ao presidente americano um inédito Prêmio da Paz.
De acordo com o governo americano, o árbitro Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada negada e está sendo investigado pelo governo americano por um suposto envolvimento com terrorismo. A informação foi dada com exclusividade pela rede de TV americana Fox News, conhecida por sua relação estreita com Trump.
“Após uma análise mais aprofundada pelo órgão de Proteção de Alfândega e Fronteiras, foram encontradas informações comprometedoras, incluindo vínculos com suspeitos de pertencerem a organizações terroristas, o que tornou o viajante inadmissível nos Estados Unidos de acordo com a Lei de Imigração e Nacionalidade”, informou o governo em comunicado repassado à Fox.
Trump e Infantino se mostaram ‘friends’ na organização da Copa 2026 – WILL OLIVER/EFE
O caso envolvendo EUA e Irã é inédita, já que nunca houve uma Copa em que o organizador estivesse bombardeando uma nação participante. O principal jogador da equipe persa, Aymen Hussein, foi interrogado por sete horas no Aeroporto Internacional de Chicago. A equipe ainda terá de realizar bate-voltas (se hospedará no Mexico e jogará nos EUA), além de ter tido ingressos revogados para sua torcida, entre outros absurdos.
Se nas Copas de 1998 e 2022, EUA e Irã passaram bonitas mensagens de paz, desta vez as polêmicas não devem cessar. Os ingressos caríssimos, as rigorosas (e embaraçosas) revistas a atletas de diversos países e até ameaça de invasão de serpentes venenosas ao CT da Suíça já mancham uma Copa que não tinha maiores motivos para retornar aos EUA, 32 anos depois do tetra do Brasil.
Menos mal que a abertura se dará no sempre hospitaleiro México. O Estádio Azteca, icônico palco que viu Pelé e Maradona erguerem a taça em 1970 e 1986, respectivamente, será o palco do duelo entre a seleção local e a África do Sul, a partir das 16h (de Brasília).
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Fonte Original: Placar





