Aquecimento global vai passar de 1,5°C e pode chegar a 2,8°C, diz ONU

A ONU calcula que, com medidas mais rigorosas, o aquecimento poderia atingir um pico de 1,7°C a 1,8°C por volta de 2050 e depois diminuir gradualmente, retornando a 1,5°C até 2100.
Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo
O mundo não conseguirá evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, limite considerado fundamental para reduzir os impactos mais graves das mudanças climáticas.
A conclusão é de um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta quarta-feira (21), que alerta para a necessidade de reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa nas próximas décadas.
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Segundo o documento, mesmo que todos os países cumpram integralmente suas atuais promessas climáticas, a temperatura média do planeta ainda poderá subir 2,6°C até 2100.
Se forem mantidas apenas as políticas que estão em vigor, o aquecimento poderá chegar a 2,8°C neste século e continuar aumentando depois disso.
Os dados fazem parte da 17ª edição do Relatório sobre a Lacuna de Emissões (Emissions Gap Report 2026), que avalia a diferença entre o que os países prometem fazer para combater o aquecimento global e o que realmente seria necessário.
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O documento aponta que décadas de ações insuficientes tornaram inevitável ultrapassar o limite de 1,5°C, considerando a temperatura média do planeta ao longo de várias décadas.
Isso, porém, não significa que seja impossível voltar a esse patamar até o fim do século.
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REUTERS
A ONU calcula que, com medidas mais rigorosas, o aquecimento poderia atingir um pico de 1,7°C a 1,8°C por volta de 2050 e depois diminuir gradualmente, retornando a 1,5°C até 2100.
Esse caminho, entretanto, exige cortes muito maiores nas emissões do que os previstos atualmente.
Para isso, o mundo precisaria reduzir os gases de efeito estufa em:
18% até 2030;
45% até 2035;
69% até 2040.
Todos os percentuais consideram os níveis registrados em 2025.
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Em comparação, o cumprimento integral das promessas climáticas apresentadas pelos países produziria uma redução de apenas 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035.
????️ ENTENDA: O Acordo de Paris, firmado em 2015, busca limitar o aquecimento global a bem menos de 2°C, com esforços para não ultrapassar 1,5°C. A temperatura é comparada à média do período anterior à industrialização. Cada fração adicional de grau aumenta os riscos de eventos climáticos extremos.
Em mensagem divulgada com o relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que ainda é possível reduzir a intensidade e a duração dessa ultrapassagem.
“Ultrapassar o limite não significa rendição”, declarou.
Segundo ele, o mundo precisa diminuir suas emissões em quase 6% ao ano até 2035 para conseguir voltar a uma trajetória compatível com a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris.
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O que significa ultrapassar 1,5°C?
O relatório alerta que cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C aumenta os riscos de consequências graves para o planeta.
Entre os impactos estão ondas de calor mais intensas, secas, enchentes, incêndios florestais e alterações que podem se tornar irreversíveis, como a perda de grandes massas de gelo e a destruição de recifes de coral.
Quanto maior for o aquecimento e mais tempo ele permanecer acima desse patamar, maiores serão os danos à saúde, à economia e aos ecossistemas.
“Cada fração adicional de grau e cada ano a mais de aquecimento acima de 1,5°C aumentam os impactos climáticos”, afirmou Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
Mesmo no cenário mais favorável analisado pela ONU, a possibilidade de retornar a 1,5°C até o fim do século é estimada em cerca de 50%.
Além da redução das emissões, esse caminho exigiria retirar da atmosfera aproximadamente 320 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) ao longo do século.
Esse volume equivale a cerca de oito anos das emissões globais de CO₂ registradas em 2024.
A retirada poderia ocorrer por meio da recuperação de florestas e de tecnologias capazes de capturar e armazenar carbono. Mas o relatório ressalta que ainda existem obstáculos tecnológicos e econômicos para realizar essa tarefa na escala necessária.
Turistas observam um incêndio florestal em meio ao agravamento da seca após uma onda de calor e escassez de água em grande parte da França, 24 de julho de 2026
Stephane Mahe/REUTERS
Emissões continuam elevadas
Apesar dos compromissos internacionais, o mundo ainda não conseguiu demonstrar uma queda sustentada nas emissões de gases de efeito estufa.
Em 2025, elas somaram aproximadamente 58,4 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, praticamente o mesmo volume registrado em 2024.
A pequena diferença entre os dois anos está dentro da margem de incerteza dos cálculos, o que impede afirmar que as emissões globais começaram a cair.
Enquanto a poluição provocada pela queima de petróleo, carvão e gás natural continuou aumentando, houve redução das emissões associadas ao desmatamento e às queimadas.
O documento também aponta que, embora mais países tenham apresentado novas metas climáticas, os compromissos adicionais tiveram efeito muito pequeno sobre as projeções de temperatura.
Até setembro de 2026, 124 países e partes do Acordo de Paris haviam apresentado novas metas, representando cerca de 76% das emissões globais.
Mesmo assim, o relatório considera que os esforços continuam insuficientes.
Entre os integrantes do G20, grupo responsável por aproximadamente 76% das emissões mundiais, apenas seis foram avaliados como provavelmente capazes de cumprir suas metas para 2030 com as políticas atualmente em vigor: China, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia.
O Brasil não está entre esses países.
As novas projeções também são menos favoráveis que as apresentadas pela ONU no ano passado. Segundo o relatório, isso ocorre principalmente por causa da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e de revisões nos cálculos das emissões históricas.
Por que cada grau importa?
Gui Sousa/Arte g1
Ainda assim, o documento aponta avanços na expansão das energias renováveis e nos resultados de políticas adotadas por diferentes países.
Desde a assinatura do Acordo de Paris, a capacidade global de geração de eletricidade por fontes renováveis cresceu três vezes mais rápido do que se previa. No caso da energia solar, a expansão foi sete vezes maior que a estimada.
A análise de mais de 220 avaliações de políticas climáticas também encontrou resultados positivos. No setor elétrico, as medidas avaliadas reduziram as emissões em média 9% durante os períodos analisados.
Para a ONU, esses avanços mostram que existem alternativas para conter o aquecimento, mas elas precisam ser adotadas em uma escala muito maior.
O relatório defende acelerar a substituição dos combustíveis fósseis, ampliar o uso de fontes renováveis, reduzir as emissões de metano e combater o desmatamento.
Sem essas medidas, a possibilidade de limitar o pico de aquecimento a 1,7°C ou 1,8°C poderá desaparecer nos próximos anos.
Segundo os pesquisadores, cada cinco anos de emissões de CO₂ mantidas nos níveis atuais acrescentam aproximadamente 0,1°C ao pico de aquecimento previsto para o planeta.
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