Com a NR-1 em vigor, dados que as empresas já têm podem indicar onde investigar riscos psicossociais
Sócia e diretora de operações da Bernhoeft defende que RH, folha, SST e área previdenciária analisem seus dados em conjunto para apoiar a prevenção
A Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% em relação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios. O cenário ganha relevância com a nova redação da NR-1, que entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Nesse contexto, dados que as empresas já possuem podem ajudar a indicar onde investigar possíveis riscos psicossociais e direcionar a análise preventiva.
Mais do que atender à exigência regulatória, a discussão abre espaço para uma mudança na forma como as empresas analisam informações relacionadas à saúde e à rotina de trabalho. Dados de afastamentos, absenteísmo, turnover, horas extras, informações de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) e indicadores previdenciários, por exemplo, podem estar distribuídos entre diferentes áreas e, quando observados de forma integrada, ajudar a identificar padrões que merecem investigação.
Como dados de saúde são dados pessoais sensíveis pela LGPD, esse cruzamento precisa ser feito de forma agregada, em grupos grandes o suficiente para que ninguém seja identificado.
A avaliação de Rafaela Lucena, sócia e diretora de operações, responsável pela unidade de BPO de Folha de Pagamento da Bernhoeft, é que a integração desses indicadores pode contribuir para uma atuação mais preventiva. Um aumento recorrente de horas extras associado ao crescimento do absenteísmo ou do turnover em determinada área, por exemplo, pode indicar a necessidade de aprofundar a investigação sobre as condições e a organização do trabalho. A leitura, no entanto, deve considerar o contexto de cada empresa e não significa, isoladamente, que exista um risco psicossocial ou uma relação causal.
Os dados previdenciários também podem fazer parte dessa análise. Pelo Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), a perícia do INSS pode presumir a natureza ocupacional de uma doença quando há associação estatística entre o diagnóstico e a atividade econômica da empresa. Benefícios caracterizados como acidentários entram no cálculo do Fator Acidentário de Prevenção (FAP), que reduz ou aumenta a alíquota do Risco Ambiental do Trabalho de cada estabelecimento. Nenhum desses mecanismos mede risco psicossocial, mas acompanhá-los ajuda a entender como o adoecimento relacionado ao trabalho se reflete em custo.
O dado de 2,04% dos benefícios reconhecidos como relacionados ao trabalho não significa que os demais afastamentos tenham necessariamente origem não ocupacional. A ressalva é importante porque o reconhecimento previdenciário possui critérios próprios. Para as empresas, o ponto central está em observar tendências e combinações de indicadores que possam sinalizar situações que precisam ser investigadas com maior profundidade.
“A folha não deveria ser apenas o lugar onde a consequência financeira do problema aparece. Ela também pode ser uma fonte de inteligência para antecipá-lo”, afirma Rafaela.
“Quando indicadores são analisados de forma isolada, a empresa pode enxergar apenas uma parte do cenário. A integração entre folha, RH, SST e informações previdenciárias permite uma leitura mais ampla e pode apoiar decisões relacionadas à prevenção, à produtividade e à gestão de riscos.”
A discussão também ultrapassa a área de Recursos Humanos. A identificação de padrões relacionados a afastamentos, absenteísmo, horas extras e turnover pode ter reflexos sobre a operação, a produtividade das equipes, os custos relacionados à força de trabalho e a gestão previdenciária. Por isso, a adequação à NR-1 pode ser encarada não apenas como uma demanda de conformidade, mas como uma oportunidade para aprimorar a gestão das informações e dos riscos relacionados ao trabalho.
Para Rafaela, o principal desafio está em transformar dados que já fazem parte da rotina das empresas em informação útil para a tomada de decisão. “O objetivo não é olhar um indicador isoladamente e tirar conclusões a partir dele, mas cruzar diferentes informações para entender onde existem sinais que justificam uma investigação mais aprofundada”, explica.
A nova redação da NR-1, portanto, amplia a responsabilidade das organizações na identificação e no gerenciamento dos riscos psicossociais e coloca em evidência a necessidade de uma atuação integrada entre diferentes áreas. Nesse contexto, a folha de pagamento, os dados de SST, os indicadores de pessoas e as informações previdenciárias podem deixar de ser analisados apenas como registros operacionais e passar a contribuir para uma visão mais ampla de prevenção e gestão.
Sobre a Bernhoeft
A Bernhoeft é uma referência nacional em consultoria empresarial, especializada em Gestão de Terceiros, Cálculos Judiciais, BPO de Folha de Pagamento e BPO e Consultoria Contábil e Tributária. Na área de BPO de Folha de Pagamento, oferece soluções que apoiam a administração das rotinas trabalhistas e previdenciárias, com foco em precisão, conformidade e eficiência operacional. A atuação abrange o processamento da folha, gestão de encargos e obrigações acessórias, administração de benefícios e auditorias. Com uma abordagem consultiva, contribui para redução de riscos, aumento da eficiência e maior controle das operações de RH, permitindo que as empresas direcionem seus esforços para atividades mais estratégicas. Para mais informações, acesse: www.bernhoeft.com.br

Rafaela Lucena






