De mãe solo na adolescência a dona de um grupo educacional com 600 mil matrículas


Como uma professora transformou seu método de redação em um grupo educacional
Toda história começa com uma primeira palavra. A de Fernanda Pessoa poderia começar com uma frase simples: “Viver é uma aventura.”
Foi assim que a educadora e empreendedora respondeu quando questionada sobre qual seria a frase inicial da redação da própria vida. E, olhando para a trajetória que construiu, a resposta parece resumir décadas de desafios, coragem e reinvenção.
Hoje, Fernanda é fundadora de um grupo educacional voltado para vestibulares e concursos públicos, com atuação presencial e online.
O negócio acumula quase 600 mil matrículas em sua plataforma digital e ajudou a formar milhares de estudantes ao longo das últimas duas décadas. Mas a história por trás do empreendimento começou muito antes das aprovações e dos resultados expressivos.
Maternidade precoce que mudou tudo
Fernanda tinha apenas 15 anos quando engravidou da primeira filha. A adolescência foi substituída pela responsabilidade. Pouco depois, veio outro desafio ainda maior: o diagnóstico de paralisia cerebral da criança.
Sozinha para enfrentar a nova realidade, ela precisou encontrar formas de sustentar a casa e garantir os cuidados da filha.
“Aprendi a fazer biscoitos e doces para vender. Eu sabia que precisava vender três latas de biscoito para conseguir comprar uma lata de leite para ela”, lembra.
A maternidade precoce transformou sua rotina e também definiu suas prioridades. Em vez de desistir dos estudos, Fernanda encontrou na educação uma possibilidade de reconstrução.
Quando chegou o momento de escolher uma formação universitária, ela optou pelo curso de Letras. A decisão teve um componente bastante prático.
Com uma filha para criar, precisava de uma carreira que oferecesse flexibilidade e diferentes oportunidades de trabalho.
Dar aulas de literatura, gramática e redação significava ampliar as chances de renda. A escolha se revelou decisiva.
Nas salas de aula, Fernanda desenvolveu uma relação cada vez mais próxima com os alunos e começou a construir uma visão própria sobre ensino.
De mãe aos 15 anos a dona de negócio com 600 mil matrículas
Reprodução/PEGN
Aluna transformou o rumo do negócio
O ponto de virada aconteceu a partir de uma estudante chamada Camila. Recém-chegada ao Brasil, ela havia sido alfabetizada em francês e precisava aprender português para realizar o sonho de ingressar em Medicina.
As aulas aconteciam em horários improváveis. Muitas vezes começavam à noite e avançavam madrugada adentro.
Ao observar o desgaste emocional da jovem, Fernanda percebeu que precisava ir além das metodologias tradicionais.
“Respeitando a demanda dela, saindo do convencional, às vezes a gente parava para comer uma coxinha”, conta.
O resultado veio com a aprovação da aluna e, junto dela, nasceu aquilo que mais tarde ficaria conhecido entre os estudantes como o “jeito Fernanda” de ensinar.
A proposta partia de uma ideia simples: antes de escrever uma boa redação, é preciso aprender a pensar.
Viagem inspirou uma metodologia própria
Anos depois, uma experiência aparentemente distante da educação ajudou a fortalecer o método. Fernanda vendeu o carro para realizar uma viagem à Itália.
Era a primeira vez que saía para conhecer o mundo. Durante o percurso, teve contato direto com obras do Renascimento e do Barroco, além de artistas como Caravaggio e Bernini.
A experiência despertou uma conexão profunda entre arte, repertório cultural e aprendizado. “Decidi ali que todas as minhas aulas seriam do meu jeito”, afirma.
Desde então, ela passou a usar fotografias produzidas por ela mesma para contextualizar conteúdos e ampliar o repertório dos alunos.
A arte deixou de ser apenas referência e passou a integrar a metodologia. O diferencial criado por Fernanda não se limita aos conteúdos.
Ela desenvolveu um sistema visual para que os estudantes compreendessem a estrutura textual.
Cada parte da redação recebeu uma cor específica. A contextualização, por exemplo, é representada pelo verde. A transição, pelo azul. A tese, pelo vermelho. O objetivo é permitir que os próprios alunos identifiquem lacunas e fortalezas em seus textos.
“Quando ele começa a se autoanalisar, percebe o que falta e o que já tem”, explica. A técnica se tornou uma das marcas registradas de seu método.
De mãe aos 15 anos a dona de negócio com 600 mil matrículas
Reprodução/PEGN
Dos fundos de um açougue para um prédio histórico
O empreendedorismo surgiu de forma quase improvisada. A primeira turma reunia apenas 13 alunos e funcionava nos fundos de um açougue.
Os resultados, porém, apareceram rapidamente. Dos 13 estudantes iniciais, 10 conquistaram aprovação no vestibular.
O sucesso gerou indicações e impulsionou o crescimento do negócio. Cinco anos depois, em 2005, o projeto já contava com cerca de 500 estudantes distribuídos em 12 turmas.
Foi nesse momento que Fernanda percebeu que precisava de uma estrutura maior. A oportunidade apareceu em um prédio histórico de Recife que estava abandonado.
Ela decidiu apostar no imóvel e transformar o espaço na nova sede do grupo educacional.
O salto para o digital
Embora a operação presencial continue ativa, foi a expansão para o ambiente online que transformou definitivamente a empresa. Atualmente, os cursos alcançam estudantes de diferentes regiões do país por meio de transmissões ao vivo e conteúdos digitais.
Os cursos preparatórios oferecidos pela plataforma têm valores que variam entre R$ 850 e R$ 2.500. A estrutura inclui estúdios próprios de gravação, equipes pedagógicas e corretores especializados.
“Aqui é onde o mundo mágico do online acontece”, diz a empreendedora ao apresentar os espaços de produção das aulas.
O digital ampliou a escala do negócio sem abrir mão da metodologia que tornou a marca conhecida. Os resultados acadêmicos ajudam a explicar a reputação construída ao longo dos anos.
Entre 2009 e 2015, 28 alunos orientados por Fernanda alcançaram nota mil na redação do Enem. Mas, para muitos ex-alunos, o principal legado não está na pontuação.
É o caso de Wellington Ribeiro, ex-estudante que obteve nota máxima no exame e retornou à escola como surpresa para a professora.
“Redação não é aprender mais sobre escrever. É aprender mais sobre a vida”, afirma. A frase sintetiza aquilo que Fernanda tenta desenvolver em sala de aula: repertório, pensamento crítico e autoconhecimento.
Ao olhar para trás, a empreendedora vê uma trajetória marcada por obstáculos, mas também por escolhas que desafiaram o senso comum.
Se pudesse conversar com a adolescente que deixou Arcoverde em busca de oportunidades, sabe exatamente o que diria:
“Tenha coragem. Arrisque-se. Vai chegar um momento em que as pessoas vão respeitar você do jeito que você é.”
Mais de duas décadas depois, a redação iniciada com uma aventura continua ganhando novos capítulos.
A cada estudante aprovado, a cada aula ministrada e a cada história transformada, Fernanda Pessoa prova que alguns negócios nascem para ensinar muito mais do que uma profissão. Eles nascem para ajudar pessoas a encontrarem a própria voz.
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Fonte Original: G1