Entre navalhas, histórias e gerações: aos quase 90 anos, Budé segue firme como um dos barbeiros mais antigos do Espírito Santo
O barbeiro que nunca fecha: Budé trabalha há mais de sete décadas sem folga e se tornou um personagem marcante na história de Conceição da Barra
Não são muitos os capixabas que trabalham todos os dias da semana. Sim, todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados como o Natal, o primeiro dia do ano e até a Sexta-feira da Paixão.
Agora, imagine que esse trabalhador exerça uma atividade que exige atenção constante, horas em pé e precisão nos movimentos. Some a isso o fato de ele ter começado a trabalhar aos 14 anos e estar prestes a completar 90 anos, em abril.
Esse homem existe. É o Uylton dos Santos, mais conhecido como Budé, o barbeiro mais querido de Conceição da Barra e, possivelmente, um dos mais antigos em atividade no Espírito Santo. Dono de um sorriso fácil, conversa afiada e mãos experientes, ele segue firme no ofício, acumulando clientes, histórias e amizades que atravessam gerações.
Entre navalhas e tesouras, Budé fala com orgulho da profissão que escolheu ainda jovem. “Esse trabalho me permitiu sustentar minha família e, até hoje, ajuda nas despesas da casa e nas minhas pessoais”, afirma.
Ao longo de mais de oito décadas de carreira, sua barbearia se tornou um espaço democrático. Por ali passaram políticos, empresários, trabalhadores simples, figuras folclóricas da cidade e até belas mulheres. Budé não sabe dizer quantas pessoas já atendeu, mas garante que foram milhares, e que cada uma deixou uma história.
Entre os clientes ilustres, ele recorda o ex-prefeito de Conceição da Barra e ex-deputado estadual Mateusão (Mateus Vasconcelos). “Quando ele era deputado, de 2003 a 2006, às vezes mandava um carro me buscar aqui na Barra para eu ir até Vitória cortar o cabelo e fazer a barba dele. Até hoje, sempre que vem à cidade, corta o cabelo comigo”, conta, orgulhoso.
Histórias curiosas não faltam. Uma das preferidas quase terminou em confusão.
“Eu estava fazendo a barba de um ex-delegado da Barra, homem valente, quando apareceu na porta o Isaías dos Cachorros, sujeito muito engraçado, mas que sempre bebia umas cachaças. Tentei impedir a entrada, mas ele olhou para o cliente e soltou: ‘oh posição boa de passar a navalha’. Ainda bem que o delegado estava cochilando e não ouviu”, relembra, rindo.
Localizada no centro da cidade, em uma rua de grande movimento, a barbearia é hoje quase um ponto turístico. É parada obrigatória para moradores e visitantes, seja para aparar o cabelo, fazer a barba ou simplesmente colocar a conversa em dia. Quem passa pela porta dificilmente deixa de cumprimentar Budé, que faz questão de responder a todos. “Eu dou bom dia e boa tarde a toda hora”, brinca, em meio a uma gargalhada sonora.
Durante a entrevista para esta reportagem, realizada em um sábado à tarde, sob sol forte, Budé interrompeu a conversa ao menos dez vezes para desejar “boa tarde” a quem passava.
O mestre da tesoura começou a trabalhar cedo. Aos 14 anos, o pai o colocou em pequenas tarefas: vendeu beiju, fez serviços em serrarias, levou marmitas para trabalhadores. “Naquela época, adolescente podia trabalhar”, explica.
Como essas atividades eram de segunda à sexta-feira e o pai não queria o filho “solto” nos fins de semana, Budé passou a trabalhar em pensões da cidade, arrumando quartos. Aos 16 anos, iniciou o aprendizado como barbeiro. Teve vários mestres: Vantuil Fonseca foi o primeiro. Depois vieram Paizinho, Ernani Benso, Jardel, José Evaristo e Lionel. “Com cada um eu aprendi um pouco”, resume.
A primeira barbearia própria surgiu por incentivo de seu Kidinho, dono do ponto onde Budé trabalha até hoje. Antigo empregador na sua pensão, ele reconheceu o empenho do jovem e o convidou a ocupar o espaço, que havia ficado vago. Primeiro alugado, depois comprado com um empréstimo no recém-chegado Banestes a cidade, uma decisão ousada para a época, paga em muitas prestações.
Desde então, Budé nunca mais parou. Trabalha todos os dias, sem exceção.
“Na Sexta-feira da Paixão, antigamente, as mulheres nem varriam a casa para guardar o dia Santo. Mas para mim sempre foi dia de trabalho. Sempre aparece um cliente. Minha obrigação é esperar o freguês”, diz.
A dedicação ao ofício ajudou a criar uma grande família. Foram dois casamentos e onze filhos. Com a primeira esposa, chamada Antônia, teve Oliverina, Aglailton, Betânia, Aline, Uilton Jr., Aglaides, Elenice e Eunice. Após a separação, criou sozinho vários deles ainda pequenos. Mais tarde, casou-se com Hilda, com quem viveu até 2022 e não teve filhos. Além disso, é pai de Fabiana, Fabrício e Fernanda, filhos de um relacionamento anterior.
Hoje, Budé mora com a filha mais velha, Oliverina. “Ela cuida muito bem de mim”, diz, emocionado. Dos filhos, apenas Aglailton seguiu a profissão do pai. Os dois dividem a barbearia. “Tem dia que ele trabalha mais, tem dia que sou eu, e tem dia que a gente não faz nada”, brinca.
Sobre aposentadoria, ele é direto: “Aqui o tempo passa rápido. A gente conversa, recebe gente. Enquanto eu estiver ativo, vou continuar sendo barbeiro”.
Bem-humorado, Budé resume sua vida com uma frase que já virou marca registrada: “Aprendi a fazer três coisas na vida: cortar cabelo, fazer barba e criança.” Rindo, ele nega a fama de namorador. Mas seu bordão nas brincadeiras que sempre acontecem na barbearia é: “Budé, o homem que gosta de mulher”.
E assim, entre histórias, risadas e o som da tesoura, Budé segue fazendo o que sempre fez e que dá sentido aos seus dias.




Malu Carletti
Assessoria de comunicação Mile4




