O caminho até o diagnóstico também precisa de uma rede de cuidado
Quando uma criança apresenta um sintoma persistente ou uma alteração que foge do seu padrão habitual, o primeiro passo costuma ser procurar atendimento médico. A partir dali, começa uma jornada que, em alguns casos, pode envolver consultas, exames, retornos e novos encaminhamentos até que a família chegue a um serviço especializado.
No câncer infantojuvenil, esse percurso merece atenção porque muitos dos sinais da doença podem se confundir, inicialmente, com manifestações de condições frequentes na infância. Febre, dores, cansaço, perda de peso ou alterações aparentemente isoladas nem sempre indicam câncer. Por isso, o desafio está em reconhecer quando uma manifestação persiste, evolui ou aparece associada a outros sinais e exige uma investigação mais aprofundada.
De acordo com o médico oncologista pediátrico Carlos Magno Bortolini, o diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento. “É preciso ficar alerta quando uma febre não cessa ou quando vem acompanhada de outros sinais, como dor óssea, palidez ou quando a criança não apresenta melhora. O mesmo vale para sintomas como dor de cabeça persistente ou vômitos. Nesses casos, é importante procurar atendimento médico para que o quadro seja investigado e, se necessário, seja feito o encaminhamento adequado”, explica.
Entre os tipos de câncer mais frequentes na infância estão as leucemias, os tumores cerebrais e ainda, os tumores ósseos, renais, os neuroblastomas abdominais, os tumores de ovários e testículos, os tumores de fígado e o do “olhinho” (retino blastoma) , e os linfomas. Segundo o médico, alterações como o surgimento de um caroço ou aumento de gânglios também devem ser avaliadas. “Qualquer caroço que aparecer em uma criança precisa de atenção. Isso não significa necessariamente que seja um câncer, mas precisa ser investigado”, afirma.
O especialista destaca ainda os avanços no tratamento da doença. “Hoje, no país, o resultado de cura e sobrevida é de 64%, e em países desenvolvidos chega a 84%”, afirma Bortolini.
É justamente nesse intervalo entre a percepção de uma alteração e a chegada ao serviço especializado que o diagnóstico precoce ganha importância, e é esse percurso que o Setembro Dourado busca colocar em evidência.
O que acontece depois do encaminhamento
Chegar ao serviço especializado é apenas uma etapa de uma jornada que continua após a confirmação do diagnóstico. A partir daí, a criança e sua família passam a lidar com uma nova rotina, que pode envolver tratamento, deslocamentos, mudanças na escola e no trabalho dos responsáveis, além de necessidades sociais e emocionais.
Por isso, discutir o caminho até o diagnóstico também significa olhar para aquilo que acontece depois dele. A identificação da doença precisa estar acompanhada de uma rede capaz de oferecer suporte à criança e à família durante o tratamento.
De acordo com a assistente social da Acacci, Syullan Ribeiro, quando as famílias chegam à instituição, encontram uma estrutura de apoio que busca atender não apenas às necessidades relacionadas ao tratamento, mas também aos aspectos sociais e emocionais dessa nova rotina.
“Oferecemos suporte multidisciplinar, alimentação, hospedagem, atividades pedagógicas e lúdicas, terapia ocupacional, entre outros. São ações que ajudam a criança a sair um pouco do ambiente hospitalar e proporcionam à família um espaço de acolhimento durante esse período”, explica.
Diagnóstico mais rápido e preciso
Para a superintendente executiva da Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil (Acacci), Luciene Sales Sena, fortalecer o primeiro olhar sobre a criança é uma das estratégias para tornar o caminho até o diagnóstico mais rápido e qualificado.
“O diagnóstico precoce não depende apenas de reconhecer um sintoma, mas de termos uma rede preparada para perceber quando aquele quadro precisa ser investigado de outra maneira. Por isso, a informação e a capacitação dos profissionais são tão importantes”, explica.
Uma das iniciativas desenvolvidas pela Acacci é o ‘Acaccinho com Você’, que leva ações de conscientização para dentro das escolas, ao encontro de professores, coordenadores e demais profissionais da comunidade escolar.
“Uma equipe técnica da Acacci promove rodas de conversa abordando os principais sinais de alerta da doença. Buscamos desmistificar o câncer infantil, orientar sobre a importância da investigação médica e fortalecer a rede de proteção às crianças e adolescentes por meio da informação”, explica Luciene.
Além do trabalho nas escolas, a instituição também participa do Programa de ‘Diagnóstico Precoce’, em parceria com o Instituto Ronald McDonald, que realiza ações educativas, palestras e capacitações para diferentes públicos. A proposta é ampliar o conhecimento sobre o câncer infantojuvenil e contribuir para que situações suspeitas sejam identificadas e encaminhadas em tempo oportuno.
No ano de 2025 foram 380 atendimentos – entre pacientes e acompanhantes – distribuídos por toda a Grande Vitória e municípios do interior como Cachoeiro de Itapemirim, Linhares, São Mateus, Colatina e ainda municípios da Bahia (Mucuri e Teixeira de Freitas).
É nessa conexão entre informação, atenção e cuidado que o caminho até o diagnóstico pode deixar de ser uma peregrinação solitária e se transformar em uma jornada amparada por uma rede de proteção.

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