Por que a Copa de 1994 não teve a mesma tensão política de 2026
O árbitro da Somália Omar Abdulkadir Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos para participar da Copa do Mundo de 2026, que será sediada em conjunto com México e Canadá. O incidente levou a Fifa a confirmar o corte de Artan da lista de árbitros do torneio.
Artan, que possuía um visto válido, foi barrado pelas autoridades de imigração dos EUA ao desembarcar. Relatos indicam o Aeroporto Internacional de Miami como o local do ocorrido. Após a negativa, ele foi forçado a retornar à Turquia, onde havia feito uma escala.
O árbitro havia sido selecionado para integrar o quadro de arbitragem da Copa do Mundo de 2026, se tornando o primeiro representante de seu país a participar de um Mundial masculino. Poucas semanas antes, a Confederação Africana de Futebol o havia eleito árbitro africano do ano.
A decisão chamou atenção porque envolvia alguém oficialmente convocado pela própria entidade. Assim, o caso do árbitro somali expõe um torneio construído com uma dessas sedes sendo um país que, ao longo das últimas três décadas, transformou fronteiras, imigração e segurança em temas tensos de sua política.
O contexto da Copa do Mundo de 1994
Quando os Estados Unidos receberam o Mundial de 1994, o país vivia um dos momentos de conflito internacional menos caótico. À época, a União Soviética havia deixado de existir apenas três anos antes, encerrando também a Guerra Fria. Washington, naquele período, se estabilizou como a principal potência econômica, militar, tecnológica e cultural do planeta.
Striker, na terra do ‘soccer’, um cachorro foi o mascote da Copa do Mundo de 1994
Também em 1994, entrava em vigor o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), acordo que eliminaria barreiras comerciais entre Estados Unidos, Canadá e México e que simbolizava uma época marcada pela globalização. A Fifa, com base nisso, enxergava os Estados Unidos como um mercado gigantesco ainda pouco explorado pelo futebol.
Isso não significa, todavia, que questões migratórias estivessem ausentes da política americana. No mesmo ano da Copa, os eleitores da Califórnia aprovaram a Proposition 187, iniciativa que pretendia restringir o acesso de imigrantes sem documentação a serviços públicos estaduais. A proposta recebeu quase 59% dos votos e se tornou um dos marcos da política migratória americana, embora tenha sido posteriormente bloqueada pelos tribunais federais.
O marco das mudanças
A transformação começou antes mesmo da virada do século, mas ganhou velocidade a partir de 11 de setembro de 2001. Os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono provocaram a maior reorganização institucional do governo federal desde o pós-guerra.
Em novembro de 2002, o Congresso aprovou o Homeland Security Act, legislação que criou o Department of Homeland Security (DHS), que absorveu 22 agências federais e cerca de 170 mil funcionários. Dela surgiram ou foram reorganizados órgãos que passariam a desempenhar papel central no controle migratório e de fronteiras, como a Customs and Border Protection (CBP) e o Immigration and Customs Enforcement (ICE).
Ataques às Torres Gêmeas, em Nova York, dia 11 de setembro de 2001 – EPA PHOTO DPA/HUBERT MICHAEL BOESL
Do mesmo modo, depois do 11 de Setembro, a imigração passou a ser encarada também como um fator importante para amda segurança nacional. Bancos de dados foram integrados, sistemas de vigilância ampliados e procedimentos de entrada tornaram-se mais rigorosos. O controle migratório deixou de ser apenas um mecanismo de gestão populacional e passou a integrar a arquitetura de prevenção contra ameaças externas.
Guerras dos anos 2000, China e Crise de 2008
As guerras que se seguiram aceleraram essa transformação invasão do Afeganistão, iniciada em outubro de 2001, como o conflito mais longo da história americana. A guerra do Iraque começou em março de 2003 sob a justificativa de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.
Com isso, ao longo de duas décadas, os Estados Unidos gastaram trilhões de dólares em operações militares e mobilizaram centenas de milhares de soldados. Ao mesmo tempo, ampliaram também o alcance global do poder americano. Enquanto Washington concentrava recursos militares e atenção política no Oriente Médio, uma atual concorrente crescia em ritmo acelerado.
Em dezembro de 2001, poucas semanas após os atentados, a China ingressou na Organização Mundial do Comércio. Nas duas décadas seguintes, então, se consolidou economicamente. Segundo dados da ONU, a participação chinesa na produção industrial global passou de cerca de 6% no início dos anos 2000 para mais de 30% nas décadas seguintes, o que impactou a industria americana.
Iraque está na Copa de 2026 – EFE/EPA/ALI HAIDER
O impacto econômico não explica sozinho a polarização política posterior, mas ajuda a compreender a erosão de confiança em relação ao consenso globalizante dos anos 1990. Em cidades espalhadas por estados como Michigan, Ohio, Pensilvânia e Indiana, o fechamento de fábricas difundiu a ideia de que a globalização produzia benefícios a outras nações.
A crise financeira de 2008 aprofundou esse processo. O colapso do mercado imobiliário e a quebra de grandes instituições financeiras produziram a pior recessão americana desde a década de 1930. Milhões de pessoas perderam empregos, e o governo federal socorreu bancos. Embora a economia tenha retomado a estabilidade nos anos seguintes, a recuperação não eliminou o desgaste político provocado pela crise.
Fator Trump e a política imigratória
Foi nesse ambiente que Donald Trump iniciou sua ascensão política. Quando anunciou sua candidatura presidencial em junho de 2015, encontrou um eleitorado muito mais receptivo a discursos sobre fronteiras, proteção econômica e soberania nacional do que aquele existente vinte anos antes.
O muro na fronteira com o México foi a proposta mais conhecida de sua campanha, mas representava apenas uma parte de um fenômeno mais amplo. Questões relacionadas a deportação, asilo, controle fronteiriço e fiscalização migratória também passaram a dominar campanhas eleitorais e o debate público.
No segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, a política migratória voltou ao centro da agenda federal com uma intensidade ainda maior do que a observada em seu primeiro governo. Com fortalecimento da atuação do ICE, episódios envolvendo turistas, estudantes, trabalhadores estrangeiros e até visitantes com documentação regular passaram a ganhar repercussão internacional.
Donald Trump e Gianni Infantino no sorteio da Fifa em Washington – (Brendan Smialowski/AFP)
O caos político cresce ainda mais pela situação global de conflitos. Nos últimos meses, ataques ao território iraniano, respondidos com ataques a bases americanas, representaram nova escalada de tensão no Oriente Médio. O Irã, por exemplo, chega à Copa em meio a embates com os Estados Unidos.
A Federação Iraniana (FFIRI) enfrentou dificuldades na obtenção de vistos para a entrada no país. Diante desse cenário, a seleção iraniana optou por estabelecer sua base de treinamentos em Tijuana, no México, em vez de uma localização inicialmente planejada no Arizona, nos Estados Unidos.
Na terça-feira, 9, a FFIRI anunciou que os Estados Unidos revogaram sua cota de ingressos para a Copa do Mundo de 2026, a poucos dias do início do torneio. A entidade iraniana expressou revolta, argumentando que a medida prejudica torcedores que já haviam adquirido bilhetes para acompanhar os jogos da seleção. A Federação tinha uma cota de 8% dos ingressos para os jogos do Irã.
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Fonte Original: Placar





