Setembro Amarelo na infância: fonoaudiologia mostra como ensinar crianças a expressar emoções e prevenção precoce em saúde mental

Muitas crises de comportamento e “birras” são, na verdade, pedidos de socorro de quem ainda não tem palavras para o que sente; Tatiane Chagas aponta o diálogo e o acolhimento como pilares de proteção psíquica desde os primeiros anos

Quando se fala na campanha do Setembro Amarelo, a atenção pública costuma se voltar prioritariamente para jovens e adultos. No entanto, especialistas em infância chamam a atenção para uma premissa fundamental: a construção da saúde emocional e da capacidade de pedir ajuda tem início ainda nos primeiros anos de vida, através do desenvolvimento da linguagem e da alfabetização emocional.

Para a fonoaudióloga Tatiane Chagas, a incapacidade de comunicar sentimentos é um dos principais combustíveis para desregulações emocionais na infância — frequentemente rotuladas de forma precipitada como “birra”, “má criação” ou desobediência.

“Antes de conseguir dizer ‘estou frustrado’, ‘com medo’ ou ‘sobrecarregado’, a criança expressa seu desconforto pelo corpo: com choro desmedido, agressividade, isolamento ou recusa em participar de atividades. Todo comportamento infantil é uma forma de comunicação. Quando olhamos apenas para o comportamento difícil e punimos sem investigar a raiz, fechamos a porta para que essa criança aprenda a buscar apoio”, pontua Tatiane.

Dentro do espírito de conscientização do Setembro Amarelo, a fonoaudióloga enfatiza que um dos maiores fatores de proteção para a saúde mental ao longo da vida é a convicção, aprendida na infância, de que sempre existe um adulto seguro a quem recorrer.

“Acolher o sofrimento não é validar a conduta inadequada, mas dar contorno à emoção. Dizer ‘eu vejo que você ficou bravo porque o brinquedo quebrou, eu estou aqui com você’ ensina vocabulário emocional e valida a dor da criança. Uma criança que cresce aprendendo a nomear o que sente e sentindo-se ouvida tem muito mais recursos internos para lidar com adversidades no futuro”, detalha.

Telas, sono e a sobrecarga invisível

Outro ponto de interseção entre a fonoaudiologia e a saúde mental infantil é o impacto da rotina moderna. O uso excessivo de telas e os distúrbios de sono têm afetado diretamente a capacidade atencional, a interação social e a regulação neurobiológica dos pequenos, mimetizando ou agravando sinais que muitas vezes são confundidos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou TDAH.

Para a especialista, a terapia e o cuidado não devem ficar restritos às quatro paredes da clínica. “Cuidar de uma planta, envolver a criança nas conversas da casa, permitir o brincar livre e desestruturado com os irmãos ou amigos e, acima de tudo, manter momentos de escuta sem telas são ações que desenvolvem a fala e protegem a mente. O Setembro Amarelo infantil é sobre criar pontes de diálogo enquanto a criança ainda está descobrindo o mundo, garantindo que o silêncio nunca seja a única opção”, conclui.

Foto do menino: Magnific/Divulgação

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