Athletic x Real Sociedad: história e curiosidades do Dérbi Basco
Athletic Bilbao e Real Sociedad se enfrentam nesta quarta-feira, 11, às 17h (de Brasília), no Estádio San Mamés, pelo jogo de ida da semifinal da Copa do Rei. A partida de volta está marcada para o dia 4 de março, em Anoeta, para decidir o finalista.
As equipes do País Basco, assim, voltam a fazer um grande duelo pela competição quase cinco anos depois de terem decidido o título de 2019/20, conquistado por La Real.
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O clássico da região pode não ser tão conhecido mundialmente como os da Catalunha ou da capital, nem tão intenso como o andaluz (Sevilla x Betis), mas é um dos mais simbólicos do futebol espanhol. Por uma questão geopolítica basca, o jogo conta com uma história centenária e até língua própria, o euskera, idioma isolado cujas origens são desconhecidas e pesquisadas até hoje.
História de Athletic x Real Sociedad
A origem do clássico está ligada ao País Basco, região localizada no norte da Espanha e no sul da França, com mais de 3 milhões de habitantes e cultura particular. A consolidação dos clubes está ligada ao fortalecimento das cidades: enquanto Bilbao se firmou como polo industrial e portuário, San Sebastián foi centro turístico frequentado pela elite espanhola.
Com o avanço do nacionalismo basco ao longo do século XX, e especialmente durante a repressão imposta pela ditadura franquista (1939–1975), o futebol se tornou espaço de afirmação identitária. Athletic e Real, ainda que com diferenças institucionais, foram veículos simbólicos dessa identidade regional.
Assim, Los Rojiblancos consolidaram postura mais rígida, historicamente baseada na utilização de jogadores formados no território basco, enquanto a Real teve postura mais flexível ao longo do tempo. A distinção, assim, produziu discordâncias, mas não necessariamente antagonismo ideológico direto.
Mapa do País Basco e suas regiões – Wikimedia
Um dos episódios mais emblemáticos do clássico ocorreu em 1976, quando capitães das duas equipes entraram juntos em campo carregando a ikurriña (entenda mais abaixo). O ato ainda ocorreu em meio à radicalização de parte do nacionalismo basco, sobretudo na atuação da organização armada ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que, em tradução livre, representa Pátria Basca e Liberade).
Dessa forma, o futebol permaneceu como um espaço simbólico da região, habitada por uma sociedade que mirava independência. Com o enfraquecimento do movimento armado e o anúncio do cessar-fogo da ETA em 2011, seguido de sua dissolução em 2018, a pauta separatista perdeu intensidade no debate público.
As curiosidades do Dérbi Basco
Clubes tradicionais e campeões
Apesar de terem recentemente remodelado seus estádios (os imponentes San Mamés e Anoeta) e de desfrutarem de certa saúde financeira, os clubes bascos têm investimentos inferiores a Barcelona, Real Madrid e Atlético. Por isso, nas últimas décadas de futebol incrivelmente globalizado não vêm conseguindo repetir as façanhas do passado, apesar de um título recente de Copa do Rei para cada lado.
A Real Sociedad tem dois títulos do Campeonato Espanhol, conquistados em 1980/1981 e 1981/1982. Além disso, conquistou a Copa do Rei de 1909, 1986/1987 e 2019/2020, em êxito sobre o rival.
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Já o Athletic, por sua vez, tem sala de troféus mais cheia, com oito ligas espanholas (1929/30, 1930/31, 1933/34, 1935/36, 1942/43, 1955/56, 1982/83 e 1983/1984). Além disso, ostenta o feito de ser o segundo maior vencedor da história da Copa do Rei, com 24 títulos (o último, conquistado em 2023/24), atrás apenas do Barcelona, que levou 32.
Em confrontos diretos, a vantagem é dos Rojiblancos. Desde o primeiro encontro em 1909, o Athletic ganhou 80, perdeu 62 e empatou 50.
Perfis distintos
Separados por cerca de 100 quilômetros (pouco mais de uma hora de carro pelas estradas bascas), os clubes de Donosti e Bilbo (San Sebastián e Bilbao em euskera) têm origens quase opostas. O Athletic foi fundado primeiro, em 1898, onze anos antes do rival.
Ironicamente, o time de Bilbao, que há mais de um século adota a política de não contratar estrangeiros, foi fundado por trabalhadores ingleses que buscavam aço nas minas locais.
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Por isso, o lado vermelho da região tem origens operárias, rebeldes, enquanto a Real Sociedad carrega um perfil mais cosmopolita e elitizado.
O Rei Alberto III era um turista assíduo do cenário paradisíaco de San Sebastián e, por isso, conferiu ao clube da cidade, então chamado de San Sebastian Foot-Ball Club, o título de “Real”, um ano após sua fundação.
O Athletic é o clube mais popular da região e nas pesquisas costuma brigar com Valencia e Sevilla pelo posto de quarto clube com mais torcedores na Espanha, atrás de Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madri.
Ikurriña: um símbolo em comum
Em passeios por Bilbao, Eibar, a capital Vitória e San Sebastián, é pouquíssimo comum encontrar a bandeira da Espanha. Já a Ikurriña, a bandeira vermelha, verde e branca do País Basco, pode ser vista por toda a parte.
O item já foi protagonista de um dérbi histórico, no qual os capitães dos times se uniram em um ato político. Durante a ditadura franquista (1939 a 1975), a Ikurriña, o euskera e qualquer traço da cultura basca eram vetados no território espanhol, pois eram associados a movimentos separatistas e terroristas.
Nesse contexto, em 5 de dezembro de 1976, pouco depois da morte de Francisco Franco e quando a bandeira de Euskadi ainda estava proibida, Jose António Uranga, um meia da Real Sociedad e fervoroso independentista, entrou no estádio de Atotxa, antiga casa do time, com uma bandeira escondida. Falou com os adversários e os capitães do time decidiram entrar em campo com ao item na mão.
Pouco mais de um mês depois, a Ikurriña foi liberada, e, atualmente, está estampada na camisa dos dois rivais bascos.
Celeiro de talentos
Os dois clubes de Euskadi têm como principal característica a valorização de suas categorias de base. Tal qual o Barcelona, que se orgulha de ter forjado craques como Messi, Xavi e Iniesta em La Masia, o Athletic e a Real Sociedad têm nos centros de Lezama e Zubieta, respectivamente, seus maiores tesouros e fontes de renda.
A equipe de Bilbao depende ainda mais da captação de talentos, já que desde 1919 só admite atletas nascidos ou desenvolvidos no País Basco. A Real Sociedad se abriu para o mercado estrangeiro há três décadas, mas segue valorizando a produção caseira.
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“Quase 60% do nosso elenco é formado por jogadores da nossa base e esperamos que esse número cresça”, garantiu o diretor de comunicaçãodo Real, Luis Arconada, em entrevista à PLACAR, em 2020.
Nos últimos anos, a Sociedad revelou jogadores como Xabi Alonso, Illaramendi, Antoine Griezmann e Martin Zubimendi. Já o Athletic, que tem mais de 150 escolinhas conveniadas no País Basco, faturou com as vendas do goleiro Kepa, do zagueiro Aymeric Laporte e dos meias Javi Martínez e Ander Herrera, além de ter em seu time titular os irmãos Nico e Iñaki Williams.
Jogo apenas para bascos até 1989
A presença de estrangeiros em campo é motivo de debate desde os primórdios do Dérbi Basco. O Athletic decidiu abrir mão de seus atletas ingleses já no início do século passado após protestos do rival de San Sebastián, que o viam como maus exemplos e denunciavam irregularidades em suas inscrições.
Iñaki Williams foi o primeiro capitão negro da história do Bilbao – EFE/ Quique García
A Real Sociedad também evitou estrangeiros até uma nova polêmica, já em 1989. Abalado pelas vendas de Bakero, Beguiristain e López Rekarte ao Barcelona e pela ida do zagueiro Loren justamente para o rival Athletic, o time de Donostia, então dirigido pelo galês John Toshack (técnicos estrangeiros são permitidos pelos dois clubes) decidiu contratar o atacante irlandês John Aldridge, estrela do Liverpool.
A abertura aumentou a animosidade entre os clubes: em Bilbao, os rivais foram acusados de vendidos, enquanto San Sebastián passou a acusar os vizinhos de sempre tentarem “roubar” seus jovens talentos.
Raros brasileiros em campo
Justamente pela política dos clubes de proibir ou limitar a contratação de estrangeiros, poucos brasileiros participaram do dérbi. Um deles teve a honra de defender os dois clubes, mas só jogou o dérbi pelo lado de Bilbao: o ex-goleiro Vicente Biurrun, hoje com 60 anos, nasceu em São Paulo, mas ainda criança viajou para a terra dos pais.
Figurinha de Vicente Biurrun na década de 80 – Reprodução / Internet
Pela Real Sociedad, a história conta com mais brasileiros. Em toda a história, o time de San Sebástian teve Luiz Alberto, Júlio César, Sávio, Rossato, Jonathas, Willian José, Rafinha e, agora, Wesley, ex-Corinthians, contratado nesta janela de transferências junto ao Al-Nassr.
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Fonte Original: Placar




