Declínio acelerado de polinizadores já tem efeitos no Brasil, mas faltam políticas e leis que os protejam
Polinizadores respondem pela reprodução de mais de 95% das plantas silvestres do mundo, e sua perda ameaça a biodiversidade e a produção de alimentos
A redução acelerada das populações de polinizadores no Brasil já compromete a regeneração de florestas, a reprodução de plantas e o equilíbrio dos ecossistemas. O alerta está em um estudo publicado nesta quinta-feira, 23/04, na revista científica Neotropical Entomology, que revela um cenário preocupante: o país acumula conhecimento científico sobre o tema, mas falha em transformá-lo em políticas públicas eficazes.
Responsáveis pela reprodução de mais de 95% das plantas silvestres e cultivadas no mundo, polinizadores como abelhas, borboletas, morcegos e aves são peças-chave para a conservação da biodiversidade. Sua redução desequilibra cadeias ecológicas, afetando a diversidade genética das espécies e a capacidade de regeneração de ambientes naturais, com impactos que alcançam também a produção de alimentos. No Brasil, 16,14%, em média, da produção agrícola e extrativista dependem de polinizadores, podendo chegar a 25%, segundo dados do IBGE.
Embora o Brasil tenha avançado em iniciativas nacionais e internacionais, ainda há lacunas na implementação e integração dessas políticas, além da ausência de uma legislação específica e articulada para o tema. A análise é de pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), Embrapa, Universidade de Brasília (UnB) e Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O declínio dessas populações é impulsionado principalmente pela perda de habitats e pelo uso intensivo de agrotóxicos. “O Brasil depende dos serviços ecossistêmicos prestados pelos polinizadores, mas figura entre os maiores consumidores globais de pesticidas”, alerta Juliana Hipólito, pesquisadora do INMA e primeira autora do estudo.
A pesquisa também chama atenção para a vulnerabilidade das abelhas nativas sem ferrão, que podem ser mais sensíveis à exposição a agrotóxicos. “Mesmo doses consideradas baixas podem causar alterações no desenvolvimento, reduzindo o tamanho e a massa corporal desses insetos e comprometendo sua sobrevivência”, explica a pesquisadora.
Apesar de iniciativas em andamento, como o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores, ainda faltam políticas integradas e legislação específica. “Fomentar a criação de políticas públicas para a proteção dos polinizadores e do serviço de polinização é estratégico, sob várias perspectivas”, complementa Jeferson Coutinho, pesquisador da Embrapa. Entre as recomendações estão a redução de incentivos a agrotóxicos mais tóxicos, o monitoramento nacional de polinizadores e o estímulo a práticas agrícolas sustentáveis.
Os autores defendem ainda a restauração de habitats e a preservação de vegetação nativa próxima às áreas produtivas, fundamental para manter os ciclos ecológicos e a própria resiliência dos ecossistemas. “A preservação de áreas de vegetação nativa próximas às lavouras não apenas protege a biodiversidade, mas fortalece as interações ecológicas que sustentam os próprios ecossistemas”, destaca Juliana. “Esses ambientes funcionam como refúgios e fontes de alimento para polinizadores, contribuindo para a manutenção de ciclos naturais essenciais.”

Xylocopa_Foto Thiago Mahlmann.
Por: Alba Lívia





